Resenha | Convite para um homicídio
Atualizado: 14 de fev. de 2024

Agatha Christie é sem dúvidas uma das maiores escritoras que já tivemos, suas obras estão aí para provar. E “Convite para um homicídio “ - apesar de ter um início problemático, segue sendo mais uma grande obra da escritora. Pois bem, quando digo “início difícil” quero dizer que por pelo menos 10 capítulos o livro é “chato”. Sua leitura é confusa - logo na primeira página você entende muito pouco do que acontece e são tantos personagens que ficamos confusos. Até mesmo depois de acontecer o assassinato algumas situações incomodam, as ações do detetive, por exemplo, são repetitivas (temos um capítulo inteiro com o policial fazendo as mesmas perguntas e recebendo as mesmas respostas de personagens diferentes).
Entretanto, me pego refletindo se tudo isso foi não foi proposital. Pois, Agatha vai de zero a cem em milésimos de segundo. Sua escrita depois de toda essa enrolação toma rumos fantásticos. Se antes, lá nos primeiros capítulos, a estória nos distanciava. Agora o jogo virou, nos somos reféns desse universo ambientado numa Inglaterra pós-guerra. Como eu havia dito, Agatha sabe muito bem como escrever, e a maneira genial que ela manipula nossa imaginação me fascina. Ela nos faz parte da estória, ela quer que participemos da investigação. Acaba sendo algo natural, quando você percebe já está tentando solucionar os mistérios e tentando responder as perguntas deixadas pelo trama.
Nós sabemos tanto quanto o detetive e isso intriga, esse único ponto de perspectiva (de que nunca sabemos de nada) que faz a gente ficar preso nas páginas. É interessante observar que sempre que pensamos que um problema foi resolvido, Agatha faz questão de apresentar uma falha. No mundo dos cinemas ao qual eu faço parte, existe um termo chamado “arma de chekov” - significa que quando um objeto (seja uma arma ou não) é apresentado, ele será usado no final.
Mas por qual razão eu mencionei este termo? Porque Agatha brinca muito com ele em sua estrutura narrativa. Ela apresenta a cada página um objeto sem importância (aparentemente), mas que no fim esse objeto/pessoa/frase revela-se de extremo valor. O choque que isso causa na gente é bastante significativo, pois mostra que ela está atenta a cada palavrinha escrita, a cada situação, a cada caminho que essa estória percorre. No fim o que parecia uma estória confusa e entediante, torna-se um suspense investigativo com um verdadeiro plot twist cinematográfico.






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